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Não, não quero fazer um texto sobre internet. Porque é chato, porque todo mundo já sabe, porque quem está lendo este artigo já está conectado e talvez saiba como funciona a cibercultura.

Mas se esse fosse um texto sobre o que está no subterrâneo deste contexto? Aquilo que não enxergamos, o que está por trás deste movimento?

Aí sim eu me interesso. Quero falar sobre o porquê do público da internet ter um comportamento diferente daquele da mídia massiva. Ou, simplesmente, porque chamamos de “público da internet” e “público da mídia massiva”.

A sociedade rompe ideias, conceitos e formas de viver de tempos em tempos. Pense num mundo medieval: as conexões sociais aconteciam dentro de feudos e aldeias, a sociedade usava cantigas e contos para informar e divertir. Está todo mundo ali, pertinho. E os conflitos, as histórias, as narrativas sociais eram feitas no boca-a-boca, porque assim era mais fácil, mais lógico. Até que esses “feudos” foram crescendo. Novos países foram sendo descobertos, com novas culturas, diferentes línguas. Ao mesmo tempo em que trocas comerciais eram cada vez mais frequentes. Aí aconteceu um rompimento social: surge a escrita e, com ela, as traduções, as formas de escrever, os formatos, os padrões. Negociar com um país distante, com pessoas diferentes, ficou muito mais fácil através da escrita. As conexões eram físicas e a geografia nunca foi tão importante.

Se a localização geográfica era tão importante, porque não investir em formas mais simples de contato? Navios, trens, bondes, todas as tecnologias de conexões físicas que pudessem facilitar essas negociações foram evoluindo.

A tecnologia que conectava na Era dos Descobrimentos. Fonte: The British Library

No século XV, a imprensa surgiu como mais um estopim do comportamento social e os formatos de conexão foram crescendo exponencialmente: o jornal, o rádio e a televisão também eram formas de unir as pessoas, através da transmissão de informações, por exemplo. Essas mídias “tradicionais” talvez sejam a maior metáfora da sociedade escrita. Talvez sejam a maior metáfora do próprio modernismo como um todo.

Isso porque aquele “padrão” desenvolvido na invenção da escrita, que facilitou o comércio e as negociações entre diferentes comunidades antigamente, é o grande código de ética do modernismo, o que guiou as “mídias de massa”.

A ideia da mídia de massa é, justamente, ser massivo, isto é, atingir o maior número de pessoas possível. Assim como As Grandes Descobertas buscavam unir povos diferentes, como os Navios serviram como tecnologias para isso, as mídias de massa serviram para unir diferentes culturas, povos, classes sociais.

Por isso os conteúdos de mídia de massa seguem padrões. Por isso existem grandes empresas de comunicação que disseminam informações e conteúdos de forma vertical e hierárquica. Por isso que você provavelmente não gosta de tudo que aparece na TV. Por isso que você não entende porque aquela propaganda existe e porque alguém acha graça nela. Porque ela não foi feita especialmente para você. Ela foi feita para o mínimo entendimento dentro de uma grande massa, ou para a maioria das pessoas dentro dela.

Se a crista da onda do modernismo é representada pela invenção da TV, seu declive começa no final da Guerra do Vietnã. Você deve estar se perguntando o que uma guerra do outro lado do oceano tem a ver com a internet. Já chegamos lá.

No final do século XX, a Guerra do Vietnã surge como sendo o primeiro conflito entre países difundido através da televisão. A forma como esta guerra foi noticiada foi tão intensa que a mídia foi o personagem principal para o fim da Guerra. Sim, isso mesmo, a TV influenciou a história. Mas calma! Não foi culpa da TV. Foi “culpa” da sociedade e seu subterrâneo.

Soldado americano lendo o jornal Stars and Stripes durante a Guerra do Vietnã. Fonte: U.S. Army Center of Military History

Soldado americano lendo o jornal Stars and Stripes durante a Guerra do Vietnã. Fonte: U.S. Army Center of Military History

Porque na TV, a tecnologia que noticiou a Guerra do Vietnã, a causa social moderna e os códigos de ética modernos chegaram ao seu ponto mais alto: padronizar, difundir para o maior número de pessoas, da forma de mais simples entendimento. Esse era o código de ética do modernismo, por sua vez, essa era a premissa da televisão.

Dentro deste contexto enxergamos o vale da onda: Imaginem os jovens da época encarando meios de comunicação sendo responsáveis por modificar ideias sociais. Isso significava poder total de manipulação e monopolização das informações. Esse momento foi de total eclosão social e resgate de antigos valores, que já estavam escondidos no cerne coletivo.

Nos tempos medievais as pessoas contavam do jeito que queriam suas verdades e escutava quem tinha interesse, quem queria ouvir, do jeito que fosse. O importante não era “ser entendido por todos”, como no modernismo. Era “contar a sua verdade”. Neste contexto vemos o terceiro rompimento social, aquilo que o filosofo Pierre Lévy chamou de “retomada das sociedades orais”.

Nos anos 1970, há um esgotamento da sociedade moderna e seus códigos, e o grito social para uma mudança é evidente. Assim, nesta mesma década, jovens californianos “tangibilizam” esse grito em uma tecnologia: o computador pessoal e os primeiro estudos sobre a internet e o ciberespaço.

Assim como as cantigas e contos foram a forma de comunicação das sociedades orais. Ou como o navio foi a tecnologia utilizada nos Grandes Descobrimentos, ou a TV na síntese do papel da mídia na sociedade moderna, a internet surge como ferramenta para facilitar o rompimento social de moderno para pós-moderno.

Se nas sociedades escritas as conexões geográficas eram tão importantes, no ciberespaço os interesses ligam pessoas, independente de sua localização. Se na sociedade moderna o conteúdo de fácil entendimento era considerado, na cibercultura tudo aquilo que é próximo do real, do tosco e do bizarro é valorizado.

Os conteúdos amadores que hoje aparecem na web e atingem grandes públicos neste ambiente, servem como grandes metáforas da transformação social do moderno para o contemporâneo. Neste contexto, novos códigos de ética são formados e a liberdade e originalidade são altamente valorizadas e respeitadas.

Por isso um bonequinho de palito fazendo cara feia é altamente compartilhado. Por isso alguém falando mal de uma marca em um vídeo do YouTube de forma engraçada atinge milhões de visualizações. Por isso existe um vídeo com um gato andando mais relevante para essa comunidade online que algum filme de Hollywood.

Rabiscos, nenhuma preocupação estética e humor negro fazem parte da linguagem meme na internet. Fonte: Blog Mundo Gamertizado

Rabiscos, nenhuma preocupação estética e humor negro fazem parte da linguagem meme na internet. Fonte: Blog Mundo Gamertizado

É como se existissem aquelas pequenas aldeias medievais conectadas por uma rede. Agora elas falam entre si. Talvez línguas diferentes, sim. Mas todas seguem um mesmo código de ética, todas têm respeito mútuo.

Aquele Senhor da Escrita, moderno, e cheio de regras de padronização não pode entrar nessas “aldeias pós-modernas” com suas premissas. Até porque um dos códigos de ética do ciberespaço é justamente romper os padrões, ser livre. Não pode dizer que o meme é feio, não pode desativar comentários em canais do YouTube, não pode dizer que o carinha do filme de Hollywwod é mais legal que o gato. Não pode impor nada, tem que ouvir. E mais: reconhecer aquele produtor de conteúdo “amador” como alguém importante, porque, dentro daquele ambiente ele é relevante.

Por isso, os conteúdos de internet que atingiram grandes números de visualizações e compartilhamentos são tão exaltados pela comunidade online. Porque, além de seguirem os códigos de ética pós-modernos, ainda chamaram a atenção daquele Sr. da Escrita que tanto valoriza audiência massiva.

No ciberespaço eles não são “produtores amadores”, eles são heróis. Heróis porque levantam a bandeira do cibercultura, porque estão na linha de frente e são vistos por todos (quem está dentro da internet e quem está olhando de fora).

Personalidades da internet como o Canal Porta dos Fundos, são representantes do “público da internet” e traduzem para quem está de fora os códigos dessa nova sociedade. Eles estão na linha entre o vídeo caseiro (que atinge somente o público da internet) e os conteúdos massivos da TV e, por isso, são tão importantes de serem observados. Não para “entender como fazer uma marca ficar famosa na internet” ou para “saber quantas visualizações atingiram”, mas para tentar entender um pouco do invisível da cibercultura.

 

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por Gabriela Lunardi

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