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No início deste ano, Rino Stefano Tagliafierro publicou Beauty, um curta de animação que atraiu a atenção do mundo inteiro. Esse é o tipo de coisa que interessa para a Mixologia Cultural. Afinal, por que tanta gente interessada em quadros antigos? No filme, o diretor animou figuras representadas em pinturas a óleo, selecionadas entre a Renascença e o Simbolismo do sec. XIX.  As imagens foram trabalhadas em Photoshop, e depois animadas em After Effects. Algo relativamente simples, mas muito trabalhoso. O tamanho do sucesso não era esperado pelo autor: “eu estava esperando aguçar o interesse das pessoas, mas absolutamente não imaginaria um sucesso similar. Talvez seja porque ‘Beauty’ é uma combinação das principais emoções humanas com maravilhosas obras de arte clássica e tem o poder de explorar isso ao máximo [1]”.

Prezado Rino, na nossa visão, você fez algo altamente relevante para as pessoas do nosso tempo. As telas originais foram pintadas em um contexto de baixíssima atividade midiática. Uma catedral, talvez, fosse a experiência mais dinâmica em se tratando de exibir mensagens. Uma pintura a óleo era tomada pelo artista como um desafio de superação dos limites da narrativa, da experiência de consumir um conteúdo. Os pintores buscavam imprimir sobre a tela um conteúdo que expandisse a consciência de quem olhava para ela. Uma grande obra produzia sobre o público o efeito de envolvimento que Gravity em 3-D tenta produzir atualmente. Quem olhava para uma tela de Caspar David Friedrich ficava com aquela sensação de “uau, que viagem”. Ocorre que essas sensações que estavam presentes na experiência da pintura a óleo foram extintas. Muito mais do que pensa o diretor de “Beauty”, além de conectar emoções das pessoas às obras de arte, o curta reconecta as pessoas com a sua própria capacidade de ver movimento nas emoções. No nosso século, onde sempre há uma tela ao nosso alcance, bem em frente aos nossos olhos, a atenção do olhar é disputada numa corrida de linguagem, onde fazem diferença o “mais rápido”, ou o “mais preenchido”, “mais interligado”, “mais codificado”. Simplesmente perdemos a capacidade de nos conectar com o movimento de uma imagem fixa, pois fomos abestalhados pela ideia de que uma coisa só pode ser considerada “em movimento” se algo físico estiver se mexendo fisicamente na nossa frente. As pinturas a óleo são registros de um tempo em que emoções continham movimento dentro da sua própria definição. Tensão, ódio, amor, desejo, estavam todos definidos pelos movimentos emocionais que geravam. A representação do desejo em óleo estava bem executada na medida em que conduzia o olhar para uma intensa leitura dos movimentos do desejo. E isso se perdeu.

Tarot of Delphi

John William Godward – Tarot of Delphi

A nossa provocação de Mixologia Cultural é que mesmo a intenção do autor do curta pode estar num lugar distante do efeito que a animação acabou produzindo nas pessoas. O insight criativo para o curta é explicado por uma lógica adequada de produção, que não precisa ser necessariamente a lógica de comportamento presente na conexão com o público. O diretor declarou também que a ideia do vídeo nasceu no desejo de “contar as principais emoções que cada pessoa encontra ao longo de sua trajetória de vida. A arte clássica sempre despertou as emoções mais intensas, e por isso, eu deixei que ela falasse” [2]. Sim, o curta é uma edição de blocos de emoções. Mas há algo profundamente novo que surge da aplicação de After Effects a pinturas a óleo todas pintadas há pelo menos 150 anos atrás. A animação produziu um efeito surpreendente de reabrir as obras para o ponto de vista que estava na mente dos seus autores. Rino Tagliafierro combinou sua prática de diretor de animação juntamente com seu conhecimento da história da arte. Ao fazer isso, mesmo sem ter consciência de tudo que estava movimentando, liberou uma nova passagem de percepções para que a nossa mente de sec. XXI pudesse voltar a enxergar os movimentos que têm origem no núcleo de cada emoção. Para tanto, Tagliafierro movimentou muito pouco fisicamente nas telas, mas o suficiente para apontar o caminho de passagem para acessarmos os movimentos que já estão dentro de nós. “Beauty” é profundamente belo, pois usa a linguagem de animação para recuperar aquilo que para nós parece estar sem movimento. “Beauty” nos reconecta com os movimentos que estão adormecidos dentro de nós, nas emoções que somos capazes de sentir pela própria definição de cada emoção. As tecnologias de tela separaram brutalmente os movimentos das emoções às quais eles pertencem, e condenados a viver desterrados, no mundo das telas dinâmicas. Os movimentos dos sentimentos não conseguem mais achar o caminho de volta às suas emoções de origem. “Beauty”, no entanto, nos mostra um caminho, e religa a cria à sua mãe. “Beauty” produz um novo território para a ação humana, pois modifica a forma que a cultura tem imposto aos movimentos das nossas emoções.

Você pode conhecer o projeto “Beauty” em detalhes, no blog do diretor. Aproveite também para conferir todas as imagens dos quadros usados para a realização do curta.

No Youtube, há cópias completas do vídeo original, publicadas temporariamente por usuários.

Tela reproduzida no artigo: John William Godward – Tarot of Delphi.

[1] blog.citroen.com.br/creative-technologie/beauty-video-rino-stefano-tagliafierro
[2] Idem

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