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Conversamos com o fotógrafo Danilo Christidis sobre seu livro Os Guarani Mbyá, e o quanto acessar outras culturas nos faz entender melhor quem nós somos. Confira abaixo.

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Danilo Christidis, na City

Incomoda a distância que existe entre todos nós.

A distância que existe entre as pessoas de um modo geral é o assunto que o livro propõe a tratar. Eu acho que isso é uma coisa que, a partir dele, eu acabo chegando num sentimento de muita vezes ter que responder essa pergunta de novo. Coisas muito óbvias entre a relação indígenas e não indígenas, principalmente nesse lugar, Porto Alegre, Rio Grande do Sul, onde a gente toma mate, usa a palavra tchê, que é uma palavra guarani, e não sabe da onde isso vem. Esse livro de uma certa maneira me mostra essa imagem que não tá nele e que os vezes me incomoda um pouco mas ao mesmo tempo é um tanto do propósito desta obra é fazer com que essa distância se aproxime e se torne relação e não uma observação de desconhecimento.

Este não é um livro de Danilo Christidis.

O livro vem muito mais com uma característica de ser uma ferramenta de interlocução, em um espaço de construção de relações mais simétricas do que necessariamente apenas uma obra fotográfica dentro das artes visuais, e tal. Inclusive, o livro circula muito mais fora deste circuito do que dentro deste circuito. Então uma exposição que vai pra dentro de uma universidade, pra dentro de uma shopping, pra dentro de uma galeria, uma praça, um parque a céu aberto… Ele tem em si uma pulsão de movimento, de gerar encontros.

Esse livro eu fui muito mais um facilitador e um provocador para que isso acontecesse do que simplesmente ter um apego autoral sobre isso.

É necessário gerar o diálogo.

O livro constrói um espaço na qual o Vherá Poty é chamado para falar. Para que ele diga. Ainda que em alguns momentos eu acabo recebendo essa incumbência de estar falando em nome de, sempre é uma responsabilidade muito grande porque eu não estou falando de um trabalho. Este livro surge justamente para ser uma ferramenta que proporciona a construção destes territórios no qual eles possam falar, o que é isso? Que modo de vida é esse? E aí o livro ganha um outro empreendimento, um outro propósito. As imagens passam a ser compreendidas de uma outra forma. O livreto, que acompanha o livro dentro dele, é uma espécie de chave que possibilita que as pessoas que conseguem ter um pouco mais de imaginação, de desconstrução de um modo de entendimento de vida assim, consigam transitar melhor nas imagens, e tocar coisa mais a fundo estas imagens a partir da leitura dessas palavras, que são palavras dele.

Não estou falando de um trabalho, é sobre um povo, uma nação, sobre todo um modo de vida.

Até no fato de na capa do livro o nome dele (Vherá Poty) estar antes do meu, é um esforço de estar tentando mostrar que a gente precisa tá dando mais voz pra essas pessoas, não apenas por uma questão política, por questão de resgate histórica, mas, e aí é uma questão de entendimento meu, que eles tem muitas coisas um tanto relevantes para serem escutadas por essas pessoas. Coisas deles. 

A gente tem muito a escutar e aprender com uma série de coisas que eles têm a dizer.

Descontruir-se para construir.

O território, ele é construído em conjunto. Ele é um espaço de mistura. Primeiro eu tive que me desconstruir um tanto, enquanto homem branco, para poder me construir enquanto outro corpo, enquanto outro corpo perceptivo, para conseguir percebe-los, para entender que território é esse outro que se constrói a partir deste livro. Percebi o quanto existe um série de entendimento de estruturantes, de significação de vida, de existência que dentro dos modos da nossa compreensão não existem justamente os ingredientes possíveis para estar descrevendo esse outro lugar, esse outro lugar de construção de significado de vida.

Só conseguimos significar.

Eu consegui entender que existem um bocado de coisas que eu não sei, de aspectos muito complexos que eu só consigo dentro da minha capacidade de entendimento, significar. Eu tive algumas coisas, experiências com o Vherá Poty de compartilhar sonhos por exemplo, uma coisa muito intensa dentro do modo de vida deles, do entendimento deles. O sonho é um espaço de realidade, de pragmatismo, tal qual o que nós estamos tendo agora. Nesse espaço eles extraem uma série de informações extremamente relevantes, de como estar neste outro pragmatismo aqui.

Tiveram uma série de coisas que me contrariaram, que me atravessaram e que me modificaram, com certeza.

Eu acho que nem tudo o que a gente não consegue descrever em palavras a gente não entende.

Tem coisas que a gente acaba se contaminando, e que modificam a gente, de uma certa forma. Mas nem todo o conhecimento tem voz. Nem todo o conhecimento tu terá a capacidade de externalizar. Ainda assim, isso não quer dizer que ele não passa a te construir e a te propor também. Em muitas conversas com o Vherá Poty e com os velhos, ele me traduzia… Os próprios velhos falam que seria necessário muito mais tempo para que eu aprendesse uma série de coisas. Por exemplo, falar o idioma.

Para um guarani, se tu não fala o guarani é como se tu não tivesse alma. Porque a palavra é a plena manifestação da tua alma. É por onde a tua alma se manifesta. Nesse sentido, a partir deste entendimento, a palavra, a fala não serve apenas para comunicar. Serve para ser. É a plena manifestação da vida. Eu não falo, eu sou o que falo. Eu não tenho um nome, eu sou o meu nome. Tem um conceito para a palavra que eles chamam de Ñhe´e – palavra habitante, palavra que a gente habita.

A mentira é uma característica ou um ato que te desumaniza

Eles chamam o homem branco de Juruá, que é boca cabeluda. Daí vem o termo mentira cabeluda, ou palavra com pelo, ou seja, aquele que mente, que não tem as palavras que vem da própria alma, que vem do coração. Então quando tem pessoas, um povo, em que na palavra, na síntese de utilização da palavra, existe toda essa carga de vida, e a gente não tem, é como se essas duas coisas não se encaixassem direito porque eu to escutando a partir da palavra, mas essa palavra eu não consigo fazer com que ela me toque com toda essa potência, porque ele já tá usando um outro idioma para estar me traduzindo isso. Então essa alma palavra ela não me atinge por completo, mas a partir de uma vivência que durou 7 anos, de uma série de experiências, de experiências como essa que descrevi, de compartilhar sonhos… Eu acredito que essas coisas tiveram a capacidade de me modificar em uma série de aspectos e fizeram com que eu conseguisse no mínimo enxergar de longe essa paisagem.

Eu lembro que na grande maioria das saídas de campo chegava o final de tarde assim, quando tava começando a anoitecer…O Vherá Poty ia com os familiares para dentro da Opy, que é a casa de reza deles… E eu tenho uma lembrança muito nítida de um desses momentos em uma Tekoa, que é a maneira como eles chamam a aldeia – lugar onde podemos ser aquilo que somos… É diferente de aldeia né?

No próprio nome, na própria tradução da palavra, ele ta colocando na palavra uma descrição do lugar e uma proposta de relação com o lugar, é mais complexo. E aí eu tenho essa lembrança de estar em uma Tekoa em Barra do Ouro, que é a Tekoa mais alta que eu conheci na serra assim. Um lugar lindo! As casas eram feitas de Xaxim. As paredes da casa eram vivas. Eles adornavam as paredes com mudas de bromélias, orquídeas, araucárias… Isso fazia com que no inverno ficasse quente e no verão ficasse fresco. Eu lembro de já ser noite e de ficar escutando os cantos das rezas deles de longes, os instrumentos e tal. Achando aquilo muito lindo, e percebendo o quanto aquilo me tocava, de certa maneira, a partir dessa distância. Aquilo me atravessava.

Teve uma vez, talvez a experiência mais intensas com eles, em que eu fui convidado para entrar, em uma cerimônia dessa casa de reza, a Opy. Enfim, fotografei essa cerimônia, tem algumas imagens no livro. Foi um momento em que aconteceram coisas que dentro da nossa descrição do mundo, faz com que o nosso mundo desmorone. Porque a gente tem uma construção concreta da nossa realidade. Dentro desta descrição, não existe um lugar em que tirar pedras do corpo de uma pessoa com a própria mão seja considerado algo corriqueiro. Isso seria caracterizado como algo fantasioso, exotérico, até assustador pra gente. E quando tu presencia uma experiência como essa, tu vê mundos em… Não diria conflito, mas que tu percebe: Não, só um pouquinho, tem várias coisas que eu não acesso!

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Foto: Vherá Poty e Danilo Christidis

…Coincidentemente, onde tá a luz é exatamente o lugar de onde os pedras foram tiradas. E não era nenhum tipo de espetáculo pirotécnico para um homem branco, era um ambiente de muita intimidade na qual duas crianças estavam tendo seus nomes revelados, que eles não recebem os nomes quando nascem. Os nomes são revelados a partir de um processo xamânico. O Xamã é esse cara. Ele é alguém que tem a capacidade de transitar entre esses mundos sem enlouquecer, sem perder a perspectiva de que ele é humano. E aí tu já vê o primeiro embate entre estado e a capacidade de entender a diversidade de um outro povo com suas leis que dizem que se tu não tem um nome quando tu nasce tu não é um cidadão, tu não tem direito a acessar todos os benefícios do estado. Na síntese disso, os guaranis já tem um confronto que descaracteriza a construção identitária deles. Esse era um ambiente de muita intimidade. Aconteceram essas cerimônias de revelação de nome e uma cerimônia de cura. Em uma dessas cerimônias, aconteceu de uma maneira muito singela, e falaram: abre a mão pra ele. Aí ele abriu a mão e tinham 3 pedras brancas, aproximadamente de 2cm. Eu olhei e disse: Uau. Ele me disse: É, isso saiu das minhas costas. Aí ele jogou no fogo.

Não existem fronteiras

O livro propõe uma possibilidade de entendimento do que seria esse povo originário, de todo um importante território do nosso continente. Ele demonstra o quanto existe um povo que não concebe e não entende o conceito de fronteiras. A palavra fronteira e limite não existem dentro do vocabulário Mbyá-Guarani. Então é um território que foi demarcado em cima de outro território. Mas eles seguem circulando dentro deste território. O povo guarani é um dos maiores povos indígenas do mundo, em termos de quantidade de pessoas  e de ocupação de território. Inclusive no livreto, o primeiro texto tenta dar conta de que território é esse. O texto fala sobre a maneira como eles se relacionam com este território, possuindo descrições muito específicas sobre épocas do ano, fenômenos da natureza, luzes, paisagens, enfim.

É uma possibilidade de um entendimento de uma faixa de território em que a gente associa uma coisa e é outra. O Brasil se vende muito enquanto o país da diversidade quando na realidade toda sua política pública é uma política pública de branqueamento, de higienização, de destruição dessa diversidade.

Por exemplo, o que eu falo não tem nada de novo, revolucionário, muito pelo contrário. É constitucional. O próprio estado não cumpre a constituição em não demarcar os territórios. Isso faz com que essas populações acabem não conseguindo acessar um modo de vida ancestral e produzir esta diversidade. Por exemplo Porto Alegre: toda a orla do Guaíba, toda a praça, era um território indígena. O centro de Porto Alegre era um ponto de encontro entre diversas famílias que se encontravam de outros lugares para trocar sementes, carne seca, essas coisas assim. Encontraram diversas cerâmicas quando reformaram a praça, dos guaranis.A gente tem o parque de Itapuã né. Itapuã é uma palavra Mbyá-guarani. Quer dizer “pedra sentada”. E é um lugar sagrado para os guaranis né. E a gente tem essa tendência de tentar esconder essas pessoas, isolar. No meu entendimento, essas pessoas deveriam ser reverenciadas.Deveria ter um lugar no parque de Itapuã que fosse um espaço de interlocução entre essas pessoas. Ou mesmo quando tu vai para São Miguel das Missões.

Tem uma foto que muita gente não entende essa imagem, mas para mim isso é muito emblemático. Foi um dia de muito frio. Eu já fui para lá várias vezes, foi uma das aldeias em que mais fui. Tu tem os ruínas de São Miguel das Missões. Inclusive essa história é uma das histórias mais mal contadas de nossa história. Essa imagem aqui. Em que tu tens um dia de muito frio, tu tens as esculturas feitas pelos guaranis, toda climatizada, numa temperatura para que não sofra nenhum tipo de dano contra o tempo. Nesse dia de muito frio estavam os guaranis sentados no lado de fora, todos no chão. Quase como se o espaço fosse para os esculturas de anjos, das imagens, não das pessoas, as pessoas teriam de estar do lado de fora.

Tem um filme que se chama “Duas Aldeias e Uma Caminhada”, de um cineasta guarani, Ariel Ortega, que fala disso. Tem os guaranis que estão vendendo artesanato em São Miguel e aí vem os brancos para comprar e os guaranis ficam putos da cara com a maneira com que vários falam com eles, mas comentam isso entre eles, em guarani. A gente nem sabe. Eles tem um modo de falar, um tom de voz baixo, calmo. Aí tu acha que eles não estão falando muita coisa, são limitadas. Eles estão trocando altas ideias.

Uma relação verdadeira, de proximidade.

O livro todo foi construído a partir de uma relação muito verdadeira, muito profunda com o Vherá Poty, que por sua vez era quem me conduzia por estes territórios. Seria o que foi construído com quase cerca de 15 comunidades indígenas, que conheceram a ideia do projeto antes de eu ir até lá. Antes de eu ir para estes lugares, o Vherá Poty viajou para todos estes lugares, conversou com todas as pessoas, todas as famílias, explicou quem eu era, o que eu estava fazendo, que ele também estava fotografando, que eu não fosse recebido como um branco e que eles não agissem como se tivessem agindo na frente de um homem branco. Depois do Vherá Poty fazer todo esse circuito, conversar com todas as famílias, todos os líderes, eu fui. Sempre antes de começar a fotografar nas aldeias, sempre tinha uma conversa longa, calma, demorada, em que isso era pra mim um dos grandes momentos da chegada nas aldeias.Eu recebi um nome, fui batizado pela mãe do Vherá Poty e sempre que eu me apresentava eu me apresentava com esse nome. Como eu não tenho um nome, eu sou um nome, isso de certa maneira provocava um… Construia um espaço de entendimento em que eles pensavam: ah, esse cara tá aqui fazendo isso. Ele é isso. Então ele tem essa missão, essa imcumbência.

Como esse livro foi construído ao longo do tempo com essas muitas famílias, e no lançamento do livro a gente fez um esforço tremendo para chamar quase todas os comunidades para o lançamento. O lançamento foi um espaço deles, quase como uma festa guarani. Então todas os lideranças de todas os comunidades falaram na abertura do livro. E teve um momento muito emocionante, que foi o Sr Avelino, que é uma liderança muito antiga aqui do estado, olhou para os fotografias e disse: Somos nós.

 

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Foto: Danilo Christidis e Vherá Poty

Tem uma fotografia em que o Sr Avelino fala sobre aquela foto: ela me provoca muitos sentimentos. Por um lado eu fico feliz ao olhar essa imagem, em ver que somos nós, e ao mesmo tempo eu fico muito triste, porque eu vejo essa casa tradicional e eu vejo a dificuldade que nós temos de conseguir construir ela. Porque eu sei que os territórios onde a gente está já não possuem os mesmas taquaras. Nos colocam em um lugar em que a gente não tem a capacidade de ser aquilo que somos. Então, essa imagem provocava para ele essa ambiguidade.

Esse livro é muito utilizado pelos educadores guaranis, pelos professores nas escolas guaranis dentro das comunidades. Quando eu mostrei esse livro no Encontro de Cultura nas Chapadas dos Veadeiros para um guarani de outro estado, ele olhava e começou a se emocionar, porque via parentes que não via há muito tempo. É um ponto de encontro para eles também.

Sempre ir em frente.

Uma vez o cacique Cirilo, que é uma das lideranças mais importantes do estado. Eu fui acompanhar uma entrevista que um antropólogo fez com ele, e ele disse o seguinte: Porque o sol está se movendo o tempo inteiro né, o vento se move, a água se move… Porque a gente tem que ficar parado? A gente também tem que se mover. Eles tem esse modo de vida se sempre ir a frente.

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Foto: Danilo Christidis e Vherá Poty

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